Este texto pode conter spoilers*.
Então, eu voltei a ler As Crônicas de Gelo e Fogo.
Depois de passar uns quinhentos anos, mais ou menos, tentando finalizar o quarto livro, digo ao povo que venci. O Festim dos Corvos não é das narrativas mais empolgantes de que me recordo. Definitivamente não foi nada gostoso passar por esse livro, mas com toda certeza não chegou a ser exatamente desinteressante. O livro é "maçudo", talvez principalmente porque não traz alguns dos personagens favoritos de muitos, como Jon Snow, Daenerys ou Tyrion. Isso provavelmente provém do fato de que esse livro e o próximo são "a mesma coisa", uma única história, que se passa no mesmo período de tempo, mas que por conta do seu tamanho, precisou ser dividida em dois volumes.
George R.R. Martin escreve muito, mas na minha cabeça isso nunca foi uma questão de prolixidade. Ele constrói as suas tramas de uma forma tão bem pensada, que pra mim, cada linha em seus livros quer dizer algo de extrema importância para a história. Por isso tantas coisas nesse livro, que pareceu impossível de vencer, acabam sendo mais importantes pela sua lentidão. Sinto que ele tomou o cuidado de inserir pessoas em lugares estratégicos, notícias que eram repassadas, cada passo de um personagem de um lugar a outro sendo perfeitamente arquitetado.
Depois que finalizei a leitura deste volume, descobri que algumas pessoas lêem O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões, como se fossem uma coisa só. Existe até uma ordem certa dos capítulos na internet, onde a pessoa teria que ficar alternando entre os dois volumes para ter a experiência completa — como o autor inicialmente pretendia. Bom, não foi o que eu fiz. Mas ao finalizar Festim, decidi pegar de pronto a sua continuação, para não deixar a experiência pela metade, por assim dizer. Fica aqui a minha breve impressão de alguns dos personagens que mais me chamaram a atenção nessa parte da história.
Arya
Arya é uma das minhas personagens favoritas. Durante a narração dos seus pontos de vista muita coisa me chamou a atenção, a primeira delas sendo algo que é citado ao longo dos capítulos também de outros personagens: a loba gigante. Em vários de seus capítulos Arya faz algo que já não é novidade para ninguém, ela vaga em sua loba assim como outros dos Stark fazem. O que os torna, ao que parece, uma família de Wargs. Nymeria tem dominado e aterrorizado as florestas comandando uma grande matilha e, apesar de estarem longe, Arya nunca perdeu a conexão com sua loba. Seus sonhos de lobo seguem firmes e fortes, mesmo quando a garota apenas "ressona", como é mostrado em um dos capítulos.
Outra coisa em que tenho pensado muito, é sobre os personagens que têm dado sinais de seguir a trajetória mais tradicional do mito do herói dentro da história. Na minha visão, isso envolve personagens que estão passando por transformações profundas, onde há a perda de identidade, em que procuram (ou são forçados a) amadurecer, questionam ou perdem o que eram, na busca de tentar descobrir quem são. Arya têm passado por um processo profundo de negação do seu antigo eu, onde me parece que ela apenas reforça quem é de verdade. Em seu último capítulo no volume de O Festim dos Corvos, a menina, agora "ninguém", acorda cega. Isso me fez pensar muito no mito de Odin, onde o deus nórdico, após se pendurar na Yggdrasil, oferece um de seus olhos para obter sabedoria. A cegueira oferece um paralelo com a obtenção do conhecimento que não vêm de fora, mas de dentro. Óbvio que muito provavelmente outras habilidades virão desta fatalidade, mas acredito que ela atende também à um propósito muito mais simbólico do que qualquer outra coisa.
Brienne
Se os capítulos de Brienne não são os mais numerosos, sem dúvida dão a impressão de ser; ficam lado a lado com os de Cersei. Me custa entender por vezes como Brienne ainda é muito jovem quando começa a sua jornada de tentar ser um "cavaleiro", e como passa por tanto neste percurso. Finalmente temos o encontro da corajosa moça com a temível Lady Stone Heart, mas antes disso a sua caminhada passa pelos encontros mais desagradáveis. O que me deixou feliz em seu percurso foi principalmente o fato de que ela finalmente descobriu que Cão de Caça está morto e que a garota em sua posse era na verdade, Arya Stark. Não que isso a tenha ajudado a obter muito progresso em sua busca, mas imagino que a informação será de grande valia no futuro. No mais, Brienne tem sido até agora uma das personagens que passou por mais provações em seu caminho, tanto pelo fato de sempre precisar enfrentar o preconceito, ignorância e olhares dos outros, como também a questão de que entrou em brigas grandes desde o último volume até este, onde em algumas delas mal escapou com vida. Isso mais do que nunca têm construído o seu caminho como a grande guerreira que ela espera ser.
Não vou negar que a conexão dela com Jaime é algo que tem me deixado animada nos capítulos de ambos. A forma como Jaime demonstra estar alcançando uma redenção ao tentar se desvencilhar das garras de Cersei e manter suas promessas, parece algo que tem um potencial gigante para o desenvolvimento do personagem. Mas gostei mesmo foi da forma como Brienne passou a ter uma verdadeira boa impressão do comandante da Guarda Real, assim como ele mesmo parece ter reservado dentro de si, um lugar de honra com a percepção da grande Brienne.
Cersei
Acho que talvez seja dizer pouco que Cersei foi definitivamente a minha grande descoberta deste livro. E digo descoberta no sentido de entender de forma mais crua o modo como a personagem pensa e age. Os seus capítulos são de fato numerosos e por vezes ficava enfadada por serem tantos. Mas o que mais me surpreendeu foi a forma como podemos, agora, sem tanta interferência de outros personagens, perceber como a rainha regente é mais vítima de si mesma do que imagina.
Cersei constantemente se queixa por estar cercada de idiotas. Ela é, em sua visão, sempre a única que enxerga as coisas como verdadeiramente são, vendo inimigos ou imbecis em todos os que não são ela mesma. Sabe o ditado de que "Narciso acha feio tudo que não é espelho"? Eu costumo dizer que Cersei é a epítome do narcisismo, a mulher é tão cheia de si que as únicas pessoas que ama são as que se assemelham a ela, o ponto mais importante disso sendo o fato de que ela é apaixonada pelo próprio irmão, que não obstante, é gêmeo. — Que inclusive, passa a rejeitar quando ele não ecoa seus próprios pensamentos e decisões, mas principalmente quando o vê já não tão perfeito assim e portanto, diferente dela, após perder uma das mãos. — Ela gosta de pensar que está sempre à dez passos de todo mundo, repete com frequência o pensamento de que só não se iguala ao pai pelo fato de ser mulher. De certa forma, não temos como discordar que o gênero é uma grande questão também em Westeros, mas o defeito de Cersei não é ser mulher, é ser ela mesma. O seu ego a impede de ver qualquer qualidade nos outros, por mínima que seja. Está tão acostumada a procurar inimigos (que ela mesma com frequência e de bom grado faz), que nunca, em hipótese alguma, procura aprender algo com outras pessoas, porque os julga tão abaixo dela em muitas instâncias, inclusive no intelecto. Quando a pessoa, neste caso, uma líder, não se encontra capaz de enxergar dois palmos à frente do próprio nariz... alguma chance de dar errado?
Todas.
Julgando que todo mundo é burro demais ela cai na própria falácia e arma para si, as armadilhas que sozinhos, outros talvez não conseguissem desenrolar sem a ajuda que ela mesma provê. Foi doloroso, ver absurdo após absurdo que a personagem comete, achando que está se livrando dos inimigos da própria coroa, enquanto se embanana toda em tramas que ela sequer é capaz de prever. Sinto que os próximos capítulos serão de um golpe tão grande no ego e na soberba de Cersei, que me pergunto se ela não vai chegar perto da loucura. O capítulo de Jaime em que a tia Genna Lannister (irmã de Tywin) diz que "o filho de Tywin é Tyrion", carrega uma grande verdade. Cersei poderia dar um braço para ser tão inteligente quanto Tyrion, mas daria dois antes de admitir qualquer verdade nestas palavras.
Alayne
Agora vamos falar de uma personagem que de fato sabe observar para crescer. Que grata surpresa é ler todos os capítulos de Sansa Stark, estar com o Mindinho, na verdade, têm saído para a loba gigante bem melhor do que a encomenda. Apesar de que "estar num ambiente familiar" não foi a melhor das experiências para a garota, ela têm se saído bem melhor quando comparada com outros sobreviventes Stark. Sansa cresce a cada capítulo que vemos dela, a convivência com Mindinho a têm levado a ser cada vez mais observadora, em suma, pensar como o seu atual "pai" pensa — ou quer que ela pense. Me pergunto em que ponto isso vai passar a ser uma pedra no sapato de Petyr Baelish, e assim como na série, veremos uma Sansa que começa a enxergar todas as teias montadas por seu atual protetor.
Em seu último capítulo Sansa fez duas descobertas muito importantes para o decorrer da trama, a meu ver. A primeira, de que seu irmão bastardo Jon Snow, por quem nunca nutriu muita afeição, diga-se de passagem, é o atual comandante da Patrulha da Noite. Mais uma vez, George R. R. Martin não dá ponto sem nó, se essa informação estava contida em uma conversa que chega aos ouvidos dela, sou levada a crer que há um bom motivo para isso. A segunda, e até agora a mais importante: Petyr deseja casá-la com o herdeiro de seu primo Robert Arryn. Durante a conversa, ele potencialmente revela para ela não apenas que planeja a morte do herdeiro de Lysa Arryn, como pretende, através da tutela e "amizade" que delegou a ela, ter posse do Ninho da Águia e de Winterfell.
Se Sansa já aprendeu o que entendemos que ela já deve ter aprendido até este ponto (apesar da pouca idade), é muito provável que durante esta única conversa, Mindinho tenha exposto para ela muitas das suas verdadeiras intenções. Óbvio que o homem é um trambiqueiro nato e ela é só uma criança, mas gosto de pensar que até agora, Sansa terá feito bem melhor do que Cersei fez, e aprendido a não subestimar seus inimigos. Muito menos seus "amigos".
Samwell Tarly
Os capítulos de Sam foram bem interessantes. O coitado passou por muita coisa desde que seu amigo, agora Lorde Comandante da Patrulha da Noite, tomou a difícil decisão de mandá-lo para a Cidadela, acompanhado de outros mais. Deve ter sido difícil para Jon perder um dos poucos e verdadeiros homens em que ele acredita poder realmente confiar, assim como foi complicado para Sam passar pela trajetória que o levou à Cidadela. Bom, ele chegou lá, e seu último capítulo foi um dos mais enigmáticos do livro. Estou animada para ver a trajetória do rapaz nesse novo ambiente. ainda mais porque tudo que descobriu assim que chegou lá, parece ser de extrema importância para a continuidade da história. Assim como Brienne, ele teve encontros importantes, como estar com Arya, apesar de não saber quem ela era e agora na Cidadela, possivelmente estando acompanhado de quem acreditamos ser um dos homens sem rosto, ou até mesmo o próprio Jaqen H'agar.
Por enquanto isso é tudo. A leitura foi lenta, mas foi proveitosa e me fez voltar a cogitar as coisas mais malucas e estudar teorias obcecadas, já que é o que temos enquanto a história não é realmente finalizada por quem a idealizou. Vou seguir com a leitura de A Dança dos Dragões, e quem sabe em breve terei mais a dizer sobre essa outra enorme jornada também.